domingo, 7 de agosto de 2011

A propósito dos ciclistas que passam semáforos vermelhos como se não houvesse amanhã

Fig. 1
Parar à espera de um sinal verde pode ser uma coisa chique, escanchada, mas chique!



A maioria dos praticantes da "passagem de vermelhos em bicicleta" diz que sim, que pensa muito no dia de amanhã enquanto olha para os lados a verificar se:
a) não há polícia por perto;
b) não se aproximam outros veículos no cruzamento;
c) não há peões a atravessar;
d) é possível efectuar a passagem sem sair da estrada para o passeio;
e) conseguem fazer isto tudo sem apoiar um pé no chão;
f) conseguem seguir a marcha sem reduzir a velocidade.


Muitos alegam que se não procederem desta forma, ir de bicicleta deixa de ser mais rápido que ir de carro e perdem a vantagem na deslocação dentro das cidades.

Quanto a mim, que não ando a fazer corridas com automóveis no arranque dos semáforos, prefiro parar na fila do sinal vermelho, demorar 20 segundos a arrancar, fazê-lo devagar e calmamente enquanto me buzinam do carro atrás, e reivindicar assim o meu direito a circular na estrada. Não atrapalho o trânsito, acalmo o trânsito -- porque esta lentidão da bicicleta pode irritar muito motorista nervosinho, mas acalma o fluxo automóvel e é muito mais isso que me interessa do que pedalar na bisga como se não houvesse amanhã para pedalar mais um pouco.


Ora, posta esta introdução de princípios, gostaria de partilhar algumas histórias reais com o leitor:



Certo dia, seguia eu a pedalar uma rua da capital abaixo, daquelas sinuosas, cheias de buracos e pisos aleatoriamente diferenciados, com semáforos de 100 em 100 metros, quando páro num vermelho ao lado de uma "lambreta" conduzida por um jovenzinho.
Quando o sinal ficou verde o jovem acelerou fazendo muito barulho e aquilo incomodou-me um bocado, apesar de eu ir bastante "galhofeira". No semáforo seguinte volto a parar ao lado dele (portanto, muita velocidade não o levou muito lonje) e imitei o som de uma aceleradela: - «Vrumm! Vruuumm!»
O miúdo deve ter-se "picado" porque voltou a acelerar com ruído assim que caíu o verde.
100 metros a seguir, semáforo no vermelho, miúdo da scooter e eu lado a lado: - «Vrumm! Vrumm!», ele todo "lixado" arranca em força quase antes do verde!
Quando me aproximei do semáforo seguinte ficou verde, mas bem o vi a olhar de soslaio e a arrancar em fúria como quem pensa «Raios! A gaja vai apanhar-me outra vez!!»

Bem, eu não ando a desafiar os motorizados, mas quando circulo com eles posso divertir-me com isso! Não encaro a bicicleta na cidade como uma guerra. Não parto do princípio que os motoristas querem atropelar-me, embora muitas vezes pareça/tentem!

Todos nós conhecemos daqui ou dali, pessoalmente ou da "literatura", cenários de tráfego misto, de ruas partilhadas por diferentes meios de transporte e peões... Alguns parecem caóticos, mas regulam-se pelo seu próprio "sistema" e praticamente não há acidentes; outros são racionais, funcionais, bonitos, inteligentes, fresquinhos pela manhã e figuram nas principais iconografias.

Não é por acaso que se diz que o trânsito em Lisboa parece uma selva e está bom de ver quem é o leão. Mas o instinto dos diversos "animais" é igual, apenas actua em diferentes escalas. Todos querem ser o mais forte e dominar a rua, em absoluto ou relativo. Se vasculharem nos fóruns da internet vão encontrar cada "espécie" a queixar-se ou a rogar pragas às outras todas. Ninguém está indubitalvelmente no topo ou no fundo da "cadeia" na medida em que cada "animal" é e/ou continua a ser exactamente aquilo que possuí, no momento em que possuí -- eu sou um BMW, eu sou um autocarro da Carris, eu sou um Táxi, eu sou um peão com um carrinho de bebé, eu sou uma cadeira de rodas, eu sou um camião do lixo, eu sou um turista a passear, eu sou uma bicicleta, eu sou uma scooter, eu sou um Smart, eu sou um Ferrari estacionado em segunda fila à porta de um «stand» de carros de luxo, eu sou uma ambulância, eu sou o carro da polícia, eu sou a viatura do sr. ministro, eu sou uns sapatos de salto alto...



Certo dia estava eu com a bicicleta parada entre as pernas, um pé em Lisboa e outro no pedal (eu sei, eu sei, trocadilho ao título de um blogue), rodas em cima de um passeio, à espera de um sinal verde para peões adjacente a uma passadeira, quando, ao cair do vermelho para a estrada vi parar um automóvel e avistei a aproximação de um pelotão de ciclistas desenfreados.

É claro que conhecendo eu a corja, aguardei que infrigissem todos para ali o sinal e seguissem viris a sua rota, convicta que teria ainda muito tempo para atravessar a estrada a pedalar na passadeira e infringir, também eu, um bocadinho do Código conforme me dava jeito. Temos que ser uns para os outros ciclistas urbanos!

Bem, se eu não conhecesse a corja, teria me atirado à passadeira, a pedalar, achando que todos os livros de Código da Estrada deviam era ser queimados numa fogueira e achando que eu tinha muito mais direito de atravessar a "zebra" a pedalar e entrar na estrada em contra-mão do que aquele pelotão de "chavalos" vestidos de lycra e com bicicletas cheias de travões de disco tinha direito de passar o vermelho.

Teriamos nos albarroado todos, eles teriam esfolado joelhos e cotovelos, eu teria ficado debaixo de meia dúzia de forquetas com suspensão, haveria carvalhada em bom português, o motorista do carro ía partir-se a rir com a palhaçada e quando ficasse verde para a estrada, ía apitar-nos e chamar-nos nomes pomposos... etc., etc.

Mas como eu dizia, eu já sabia que eles não íam parar no semáforo e esperei.
Ora, o primeiro do grupo, avistando-me de bicicleta pronta a iniciar marcha, parou e respeitou o sinal vermelho. Os que vinham imediatamente atrás também pararam muito a fundo (travões de disco, lá está!), mas o da "cauda" contornou-os com um elegante «S» e gritou-lhe - «Não pares, pá! Não pares, pá!».
O rapaz que parou explicou-se - «Epá, está vermelho!», apontando com a cabeça para mim-semi-peão como quem acrescenta «e há pessoas para passar».

Pois estava vermelho! E eu pergunto qual será a opinião desta malta quando passar vermelhos começar a resultar em acidentes entre ciclistas?

Fig. 2


Além disso, vejo muita gente fazer bandeira ideológica dessa "chique-espertice" que é passar um vermelho quando dá jeito. Ora, quanto a mim, que também passo vermelhos com características específicas, penso sempre, como os outros chicos-espertos, que enquanto for só eu não há problema. Pois eu comecei agora, mas antes de mim eras tu, e antes de ti era um pelotão de estradistas domingueiros... Aprendemos uns com os outros e há até quem aprenda com os Bike-Buddies (minuto 3:19)!! E às tantas, outros condutores de outros veículos vão aprender connosco, como aconteceu certo dia...


Certo dia, em verdade certa noite, seguia eu a pedalar numa rua lisboeta quando à passagem de um semáforo vermelho abrandei mas segui sempre. Ora, "a meu par" seguia um automóvel conduzido por outro chico-esperto que, observando-me passar o vermelho, achou que também tinha o direito de fazer o mesmo. Acontece que a minha bicicleta seguia quase à velocidade da passada e fiz imediatamente STOP no triângulo do cruzamento (onde cabe uma bicicleta mas não cabe um carro), enquanto o carro seguia àquela velocidade que se circula dentro das cidades e por pouco não se enfaixou na viatura que entrou da direita!!

Posto isto, acham bem que eu ande para aí a passar vermelhos só porque a bicicleta anda devagar e olho bem para os lados com um amplo ângulo de visão?!?

E acham que ganho alguma coisa na argumentação com o sr. agente da autoriedade que me "placar" numa dessas infracções se o mandar ir multar os carros estacionados em cima dos passeios?!?

E acham que convenço alguém a deixar o carro em casa alegando que a bicicleta é mais rápida dentro da cidade se o tipo quiser fazer uma corrida também sem parar nos semáforos da avenida?!?


Oiço alguns dizer assim: «É certo que existem alguns ciclistas que não cumprem as regras, mas nós não temos uma "arma" nas mãos (tal como um carro que na minha perspectiva pode ser considerado como tal) dificilmente causamos um acidente de onde ocorram mortos, daí também existir um certo facilitismo da nossa parte (ciclistas).»

Eu penso assim:
Quando um automóvel passa um vermelho e embate contra mim a andar de bicicleta, é o meu corpo e talvez a Seguradora dele que pagam. Quando eu de bicicleta passo um vermelho e embato num automóvel a circular, é o meu corpo e a minha carteira que pagam.
E continuo a pedalar como se houvesse amanhã.


Fig. 1 via blog.ta.org.br <-- veja também este artigo poético sobre o que pode acontecer quando um ciclista pára num sinal vermelho. ;-)

Fig. 2 via valoreseatitudes.blogspot.com <-- veja também este artigo sobre a percepção de riscos e o vídeo no final -- campanha sobre os riscos de atropelamento de ciclistas, esses seres que ninguém espera ver na estrada!


terça-feira, 2 de agosto de 2011

MC de Julho - mais fotografias

Aviso à navegação: Para quem está a ler isto através do Planeta Bicicultura saiba que este é o blogue I Bike Lisbon, iniciado em Setembro de 2010 com inspiração no blogue londrino I Bike London de Mark Ames (ainda que essa inspiração não passe do título). Trata-se de um blogue sem qualquer pretensão para a regularidade editorial ou prestação de serviço público de muita qualidade. É um blogue pessoal, para o qual contribuem duas pessoas que se deslocam habitualmente de bicicleta pela cidade. Assim, este blogue não pretende mais do que registar as pedaladas dos dias, arquivar conteúdos que se vão criando na(s) máquina(s) fotográfica(s) e na experiência adquirida.
O
I Bike Lisbon foi agregado ao Planeta Bicicultura desde há dois ou três artigos atrás.
Obrigado pela atenção e boas pedaladas!


Mais fotografias da Massa Crítica de Lisboa*:









* Ligação para um álbum no facebook, pode ser necessário ter conta ligada para visualizar as fotografias.


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Massa Crítica de Julho

Uma bela enchente na Massa Crítica lisboeta deste mês.
De um modo geral, os "habitués" não esperavam tanta gente num mês que já é de férias escolares e em que um significativo grupo lisboeta debandou para Sines aproveitando para estar presente no Festival das Músicas do Mundo e na Massa Crítica da terra de Vasco da Gama.
Porém formou-se um grande grupo de bicicletas de todos os tipos e feitios e, ao que parece, muitos vieram pela primeira vez.
Contabilizaram-se cerca de 120 bicicletas.
O percurso, esse é que não foi grande novidade, mas circulámos em massa em algumas das principais avenidas da cidade e fizémo-nos notar em algumas praças.
Partindo como habitual com as três voltas à rotunda do Marquês de Pombal seguimos pelas avenidas: Fontes Pereira de Mello, República, Campo Grande, Igreja, Roma, Manuel da Maia, Almirante Reis. A terminar deram-se cinco voltas ao Martim Moniz e finalizámos na Praça da Figueira.

Segue-se uma breve galeria com fotografias da bicicletada.
Clicar para aumentar.